Os Grandes sistemas da Filosofia Antiga - Pt 2
- setembro 06, 2017
- By Ivan Sousa
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Com Platão, Aristóteles representa o ápice da investigação racional da Grécia Antiga. Seu sistema, além de propor soluções mais adequadas para as aporias levantadas pelos primeiros filósofos, é o mais completo sistema filosófico que encontramos na Antiguidade.
Sua principal obra é a MetafÃsica, na qual trata da verificação das teorias filosóficas sobre os princÃpios gerais que constituem a natureza. Segundo o filósofo, as tentativas anteriores a seu sistema foram "tentativas balbuciantes" de descrever a realidade. Isso mostra que Aristóteles estava amadurecido o suficiente para fazer uma análise e uma crÃtica de toda a Filosofia anterior. Como já foi dito, nesta obra, são investigadas as questões filosóficas sobre os primeiros princÃpios da natureza; portanto, é uma investigação das primeiras causas. É nesse sentido que devemos entender o termo "metafÃsica" como parte da investigação que trata das causas primeiras e/ou dos primeiros princÃpios. Para Aristóteles, essa é a Filosofia primeira.
Aristóteles (apud REALE, 1994, p. 337) informa-nos o seguinte: "Se não subsistisse outra substância além das sensÃveis, a fÃsica seria a ciência primeira", mas a fÃsica trata das causas que derivam de alguma consequência, no entanto, se não houvesse uma causa primeira, as coisas não teriam uma primeira causa, e a relação entre causa e consequência tenderia ao infinito, o que causaria imensas dificuldades lógicas.
Há uma inversão do entendimento de princÃpio em Aristóteles em relação a Platão. Enquanto, para Platão, os princÃpios eram considerados transcendentes a toda realidade, Aristóteles entende- os com tendo uma natureza imanente à s coisas. Segundo Reale (1994, p. 325):
Se os PrincÃpios e as Idéias são supra-sensÃveis e transcendentes, então, eles não servem de modo algum ao objetivo em vista do qual foram introduzidos: justamente enquanto transcendentes, eles não podem ser nem causa da existência, nem causa do conhecimento das coisas sensÃveis, porque a causa essendi et cognoscendi das coisas deve estar nas coisas e não fora delas.
Fica claro como Aristóteles coloca os princÃpios supremos na própria natureza das coisas; portanto, trata-se de compreender a natureza como uma tendência em que as coisas têm uma finalidade em potência. A realização dessa potência deve ser entendida como causa final.
Podemos destacar algumas caracterÃsticas principais que a Filosofia primeira ou metafÃsica indaga. São quatro caracterÃsticas hierarquicamente distintas, mas pressupostas mutuamente, a saber:
1) Sobre os princÃpios supremos.
2) Sobre o ser enquanto ser.
3) Sobre a substância.
4) Sobre Deus e o suprassensÃvel.
Segundo Reale (1994, p. 336), as quatro definições "dão forma e expressão perfeita à s linhas de força segundo as quais se desenvolveu toda a precedente especulação de Tales a Platão". Nesse sentido, a consideração dos "princÃpios supremos", ou primeiros princÃpios da natureza, é a busca pela arché, como na Filosofia Jônica. Já a consideração "do ser enquanto ser" está intimamente ligada à concepção de Parmênides e, também, da ontologia Platônica. Na consideração "da substância", como há uma pluralidade de seres, trata-se de considerar qual seria o ser mais verdadeiro. Por fim, deve-se considerar o primeiro princÃpio em suas caracterÃsticas divinas, ou seja, como "Deus e o suprassensÃvel".
O estudo sobre os princÃpios supremos pressupõe o estudo sobre Deus e o suprassensÃvel; o estudo sobre a substância pressupõe o estudo sobre o ser enquanto o ser é; o ser, por sua vez, é, necessariamente, substância, e assim por diante.
Um importante tema dentro da metafÃsica de Aristóteles é a sua teoria do hylemorfismo ("hylé" significa "matéria", e "morphe" significa "forma"). Todas as coisas concretas pressupõem dois princÃpios: a matéria e a forma. A matéria é entendida, na concepção aristotélica, como possibilidade e, também, como passividade. Trata-se de estar entre a pura ausência (não ser) e o puro ato (ser). Segundo Reale (1994, p. 362):
A matéria é potência, isto é, potencialidade, no sentido de que é capacidade de assumir ou receber a forma: o bronze é potência de assumir a forma de estátua; a madeira é potência para os vários objetos que com ela podem ser feitos, porque é concreta capacidade de assumir as formas dos objetos.
É a matéria, como deixa claro a citação anterior, que realiza a individuação dos entes; sem ela, nenhuma individualidade é possÃvel. Aristóteles, ao contrário de Platão, valoriza a matéria como um princÃpio fundamental tanto para a constituição fÃsica e metafÃsica do mundo como para o conhecimento.
A forma, o outro princÃpio constitutivo, é a essência, que não é, como em Platão, transcendente, mas, sim, imanente à s coisas. É ela que determina o que a coisa deverá ser. Nesse sentido, entende- se que a forma é ativa, diferentemente da matéria passiva. A forma determina a matéria com qualidade e conteúdo concreto.
Da união entre a matéria e a forma, surge o que Aristóteles chama de substância primeira. O movimento que realiza a passagem da matéria amorfa para a coisa concreta é chamado de enteléquia. Podemos dizer que esse movimento é a realização da potência.
Além das duas causas apresentadas (causa material e formal), ainda temos mais duas: a causa eficiente e a causa final. Nesse sentido, podemos ilustrar o processo enteléquico da seguinte forma:
a) Causa material (o substrato): a pedra de mármore.
b) Causa formal (a ideia da estátua): a ideia no intelecto do
escultor.
c) Causa eficiente (o movimento que leva a ideia da estátua na pedra): braço do escultor, cinzel e martelo.
d) Causa final (a mais importante, pois expressa a razão de
ser da estátua): honrar Apolo, por exemplo.
Cabe observar que a causa final é, ao mesmo tempo, a última e a primeira. Quando se refere à razão das coisas, ela é última como fim; quando é pensada como a razão pela qual a coisa tem inÃcio, ela é primeira. Isso faz que Aristóteles pense o mundo como algo que contém um sentido teleológico, e essa consideração irá levá-lo a estabelecer o primeiro motor imóvel.
Como tudo no mundo está sujeito à enteléquia, que realiza a passagem da potência ao ato, o mundo, necessariamente, implica o movimento, e a causa do movimento deve ser um motor imóvel, pois remontar o movimento ao infinito impede que haja uma causa "última" ou "primeira" que origine o movimento. Portanto, deve haver um princÃpio "último" que seja causa do movimento, mas que não se mova. Segundo Aristóteles, trata-se do Primeiro Motor Imóvel. Mas como se move ser sem movido? Pelo teleologismo. O teleologismo implica que a perfeição do primeiro motor faça que todas as coisas desejem alcançar essa perfeição, ou seja, todas as coisas buscam tornar-se atualidade pura, como o é o primeiro motor imóvel. É ele que inicia o movimento pelo desejo que suscita nas coisas. Como o primeiro motor é imóvel, é a causa última de todo movimento.
Todas essas questões serão aprofundadas no conteúdo desenvolvido em cada um dos posts. Além desses temas, que são centrais, abordaremos outros, como a polÃtica, a ética e a epistemologia presentes na História da Filosofia Antiga.




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