Os Grandes sistemas da Filosofia Antiga - Pt 2




Com Platão, Aristóteles representa o ápice da investigação racional da Grécia Antiga. Seu sistema, além de propor soluções mais adequadas para as aporias levantadas pelos  primeiros filósofos, é o mais completo sistema filosófico que encontramos na Antiguidade.

Sua principal obra é a Metafísica, na qual trata da verificação das teorias filosóficas sobre os princípios gerais que constituem a natureza. Segundo o filósofo, as tentativas anteriores a seu sistema foram "tentativas balbuciantes" de descrever a realidade. Isso mostra que Aristóteles estava amadurecido o suficiente para fazer uma análise e uma crítica de toda a Filosofia anterior. Como já foi dito, nesta obra, são investigadas as questões filosóficas sobre os primeiros princípios da natureza; portanto, é uma investigação das primeiras causas. É nesse sentido que devemos entender o termo "metafísica" como parte da investigação que trata das causas primeiras e/ou dos primeiros princípios. Para Aristóteles, essa é a Filosofia primeira.

Aristóteles (apud REALE, 1994, p. 337) informa-nos o seguinte: "Se não subsistisse outra substância além das sensíveis, a física seria a ciência primeira", mas a física trata das causas que derivam de alguma consequência, no entanto, se não houvesse uma causa primeira, as coisas não teriam uma primeira causa, e a relação entre causa e consequência tenderia ao infinito, o que causaria imensas dificuldades lógicas.

Há uma inversão do entendimento de princípio em Aristóteles em relação a Platão. Enquanto, para Platão, os princípios eram considerados transcendentes a toda realidade,  Aristóteles entende- os com tendo uma natureza imanente às coisas. Segundo Reale (1994,  p. 325):

Se os Princípios e as Idéias são supra-sensíveis e transcendentes, então, eles não servem de modo algum ao objetivo em vista do qual foram introduzidos: justamente enquanto  transcendentes, eles não podem ser nem causa da existência, nem causa do conhecimento das coisas sensíveis, porque a causa essendi et cognoscendi  das coisas deve estar nas coisas e não fora delas.  

Fica claro como Aristóteles coloca os princípios supremos na própria natureza das coisas; portanto, trata-se de compreender a natureza como uma tendência em que as coisas têm  uma finalidade em potência. A realização dessa potência deve ser entendida como causa final.

Podemos destacar algumas características principais que a Filosofia primeira ou metafísica indaga. São quatro características hierarquicamente  distintas, mas pressupostas mutuamente, a saber:

1) Sobre os princípios supremos.
2) Sobre o ser enquanto ser.
3) Sobre a substância.
4) Sobre Deus e o suprassensível.

Segundo Reale (1994, p. 336), as quatro definições "dão forma e expressão perfeita às linhas de força segundo as quais se desenvolveu  toda a precedente especulação de Tales a Platão". Nesse sentido, a consideração dos "princípios supremos", ou primeiros princípios  da natureza, é a busca pela arché, como na Filosofia Jônica. Já a consideração "do ser enquanto ser" está intimamente ligada à concepção de Parmênides e, também, da ontologia  Platônica. Na consideração "da substância", como há uma pluralidade de seres, trata-se de considerar qual seria o ser mais verdadeiro. Por fim, deve-se considerar o primeiro princípio  em suas características divinas, ou seja, como "Deus e o suprassensível".

O estudo sobre os princípios supremos pressupõe o estudo sobre Deus e o suprassensível; o estudo sobre a substância pressupõe o estudo sobre o ser enquanto o ser é; o ser, por  sua vez, é, necessariamente, substância, e assim por diante.

Um importante tema dentro da metafísica de Aristóteles é a sua teoria do hylemorfismo ("hylé" significa "matéria", e "morphe" significa "forma"). Todas as coisas concretas pressupõem dois princípios:  a matéria e a forma. A matéria é entendida, na concepção aristotélica, como possibilidade e, também, como passividade. Trata-se de estar entre a  pura ausência (não ser) e o puro ato (ser). Segundo Reale (1994, p. 362):

A matéria é potência, isto é, potencialidade, no sentido de que é capacidade de assumir ou  receber a forma: o bronze é potência de assumir a forma de estátua; a madeira é potência para os vários objetos que com ela podem ser feitos, porque é concreta capacidade  de assumir as formas dos objetos.

É a matéria, como deixa claro a citação anterior, que realiza a individuação dos entes; sem ela, nenhuma individualidade é possível. Aristóteles, ao contrário de Platão, valoriza a  matéria como um princípio fundamental tanto para a constituição física e metafísica do mundo como para o conhecimento.

A forma, o outro princípio constitutivo, é a essência, que não é, como em Platão, transcendente, mas, sim, imanente às coisas. É  ela que determina o que a coisa deverá ser. Nesse sentido, entende- se que a forma é ativa, diferentemente da matéria passiva. A  forma determina a matéria com qualidade e conteúdo concreto.

Da união entre a matéria e a forma, surge o que Aristóteles chama de substância primeira. O movimento que realiza a passagem  da matéria amorfa para a coisa concreta é chamado de enteléquia. Podemos dizer que esse movimento é a realização da  potência.

Além das duas causas apresentadas (causa material e formal), ainda temos mais duas: a causa eficiente e a causa final. Nesse  sentido, podemos ilustrar o processo enteléquico da seguinte forma:

a) Causa material (o substrato): a pedra de mármore.
b) Causa formal (a ideia da estátua): a ideia no intelecto do
escultor.
c) Causa eficiente (o movimento que leva a ideia da estátua na pedra): braço do escultor, cinzel e martelo.
d) Causa final (a mais importante, pois expressa a razão de
ser da estátua): honrar Apolo, por exemplo.

Cabe observar que a causa final é, ao mesmo tempo, a última e a primeira. Quando se refere à razão das coisas, ela é última  como fim; quando é pensada como a razão pela qual a coisa tem início, ela é primeira. Isso faz que Aristóteles pense o mundo como  algo que contém um sentido teleológico, e essa consideração irá levá-lo a estabelecer o primeiro motor imóvel.

Como tudo no mundo está sujeito à enteléquia, que realiza a passagem da potência ao ato, o mundo, necessariamente, implica  o movimento, e a causa do movimento deve ser um motor imóvel, pois remontar o movimento ao infinito impede que haja uma causa "última" ou  "primeira" que origine o movimento. Portanto, deve haver um princípio "último" que seja causa do movimento, mas que não se mova. Segundo Aristóteles, trata-se do Primeiro  Motor Imóvel. Mas como se move ser sem movido? Pelo teleologismo. O teleologismo implica que a perfeição do primeiro motor faça que todas as coisas desejem alcançar essa  perfeição, ou seja, todas as coisas buscam tornar-se atualidade pura, como o é o primeiro motor imóvel. É ele que inicia o movimento pelo desejo que suscita nas coisas. Como  o primeiro motor é imóvel, é a causa última de todo movimento.

Todas essas questões serão aprofundadas no conteúdo desenvolvido em cada um dos posts. Além desses temas, que são centrais, abordaremos outros, como a política, a ética e a epistemologia presentes na História da Filosofia Antiga.

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