O Nascimento da Filosofia | Homero



A primeira grande revelação da nova cultura são os poemas de Homero. Por muitos séculos, esses poemas formam o principal veículo pedagógico da Grécia, sendo transmitidos, sobretudo, oralmente. Vale observar que, por volta de 560 a.C., os poemas foram levados para Atenas, onde a juventude ateniense os memorizava e declarava; eles viam, nesses poemas, também, os seus modelos comportamentais e os seus modelos de vida e de virtude. Cabe ressaltar que uma das possíveis respostas ao milagre grego se atribui, justamente, às condições que os poemas homéricos proporcionavam aos gregos. Além disso, temos de destacar, aqui, que a religião homérica, da qual, posteriormente, se origina a sua educação, revela-se como uma religião sem qualquer análogo.  Diferentemente das outras religiões, que se fundam numa relação de adoração – traço comum a todas as religiões –, a homérica funda-se na relação de rivalidade entre o humano e o divino. Notamos que os deuses gregos são constructos antropomórficos, isto é, eles possuem o mesmo caráter dos humanos: são bons ou maus, são justos ou injustos, são corajosos ou covardes etc., ou seja, tudo o que o gênero humano possui. A única diferença consiste no fato de que os deuses antropomórficos são imortais. Todavia, os humanos também o poderiam ser; bastaria fazer algo notável que se gravasse na memória dos mortais. Assim, os humanos eram forçados, por esses modelos divinos, a superarem a si mesmos e aos outros. Justamente por isso, a primeira forma da pedagogia grega, revelada pelo ostracismo, enfatizava a disputa. Nessa disputa, Nietzsche vê a fórmula milagrosa da cultura grega:

O sentido original dessa instituição singular não é, porém, o de válvula de escape, mas de um meio de estímulo; eliminam-se aqueles que sobressaem, para que o jogo da disputa desperte novamente. [...] É este o germe da noção helênica de disputa: ela detesta o domínio de um só e teme seus perigos, ela cobiça, como proteção contra o gênio – um segundo gênio. Todo talento deve desdobrar- se lutando, assim ordena a pedagogia popular helênica [...]  (NIETZSCHE, 2005, p. 789).

A disputa estimulava o desenvolvimento dos dons naturais, e, nela, os humanos superavam-se e alcançavam a glória. É justamente essa sede de glória que tornou os gregos um povo sublime que, na mais alta expressão dessa sublimidade, criou a Filosofia.  Para isso, é necessário que entendamos um pouco a formação dessa cultura tão admirada por todos os povos, em todos os tempos.

Gênese da cultura grega

O povo grego era muito curioso. Por meio das suas viagens marítimas, eles tiveram contato com as civilizações mais antigas e com os seus conhecimentos científicos, dentre os quais cabe mencionar  estes: Egito, Mesopotâmia, Babilônia etc.

No Egito e na Mesopotâmia, mais ou menos na mesma época, em torno de 4000 anos a.C., surge a escrita. Vale  observar que essas civilizações se desenvolveram bastante cedo por causa das condições perfeitas oferecidas pelos rios Nilo, Tigre e Eufrates. Chamam-se, por isso, "civilizações hidráulicas", desenvolvendo uma avançada cultura agrícola. Além disso, uma influência muito forte sobre o desenvolvimento da cultura grega é exercida pela crença egípcia da imortalidade da alma. Da Babilônia, os gregos apreenderam os conhecimentos  de Astronomia e de Matemática, como, por exemplo, que o dia se divide em 24 horas, que o círculo possui 360º etc. No geral, as civilizações Orientais proporcionaram ao curioso povo grego diversos conhecimentos, sobretudo práticos. Mas coube aos gregos a realização definitiva da ruptura entre a necessidade prática e os saberes científicos. Em outras palavras, as civilizações Orientais utilizavam-se da ciência para a solução de problemas práticos. Inversamente, os gregos romperam a ligação íntima entre a necessidade prática e a ciência e começaram o desenvolvimento da ciência pela ciência. Um exemplo muito claro dessa atitude dos gregos nos é apresentado por Pitágoras, o qual viveu por muito tempo no Egito e na Fenícia e aprendeu vários conhecimentos, dentre eles, a Aritmética, que os fenícios utilizavam para a Contabilidade. Retornando à sua terra natal, ele fundou a Matemática, libertando-a da servidão dos contabilistas e colocando-a a serviço de si mesma. Portanto, o gosto pelas ciências era decisivo no processo do surgimento da verdadeira expressão do logos. Os gregos apresentavam-se como um tipo de civilização que estava pronta a receber o conhecimento de onde quer que este viesse, o que aconteceu desde os primórdios de sua constituição histórica.


Nesse mesmo sentido, a pólis grega foi uma mola propulsora para que novos elementos surgissem na cultura do povo grego. Assim,  o gênio grego transformou todas as influências que um povo no ápice de seu desenvolvimento político e econômico poderia sofrer. Entretanto, as influências que sofria o grego se transformavam  em algo próprio, e, com o desenvolvimento da pólis, a Filosofia brotava do seio dessa cultura maravilhosa, transformando toda  a influência não grega em algo original e peculiar à sua própria civilização, ou seja, em algo que era grego por excelência.

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