O Nascimento da Filosofia e a Pólis Grega



Pólis e Filosofia

O nascimento da Filosofia coincide com a formação da pólis grega, que surge em torno dos séculos 10º a.C. e 8º a.C. como cidade-estado e torna-se uma das principais estruturas da  sociedade antiga. Esse novo fenômeno político concentra em si a vida  econômica da região. A pólis transforma-se no centro cultural e administrativo em que vivem os livres helenos e seus escravos estrangeiros. A cidade grega enraíza e fortalece a diferenciação  de classe na sociedade. Vale notar que a pólis grega substitui o caráter fechado da cultura consanguínea camponesa com instituições e formas públicas na vida urbana, tais como: comércio, política, aparato administrativo e expressões culturais, cada uma delas no seu devido lugar – feira, praça, teatro etc. Não é por acaso que sete cidades na Grécia disputam o lugar natal de Homero. Surpreendente, ainda, é o fato de que nenhum dos filósofos gregos reconhece que nasceu em uma aldeia, pois é na cidade que os filósofos filosofam – os mais sábios em Atenas, os menos sábios em Abdera. Nesse sentido, podemos dizer que a Filosofia Antiga é um fenômeno da cultura urbana.

O filósofo grego é um cidadão livre – participa de modo igual a todos os outros nas guerras, nas Olimpíadas, nas festas e, também, na gestão da pólis. Por essa razão, a Filosofia Grega é política,  e os próprios filósofos frequentemente assumem a função de legisladores. Esse hábito de o filósofo assumir funções de gestor e legislador começa com Licurgo, que elabora as leis de Esparta. Em seguida, Sólon cria as leis sábias e justas de Atenas. Já Demócrito escreve as leis democráticas em Abdera. Heráclito, o obscuro, chega até a negar o pedido dos seus concidadãos de Éfeso para elaborar  o sistema legislativo da cidade. A tradição continua com Platão, com a primeira utopia: A República; mais tarde, Aristóteles, com  seus alunos, indaga sobre 168 constituições para resolver qual das formas de governo é a melhor. Vemos, portanto, como a cidade e as suas diversas ocupações são de estrema importância para a formação  do pensamento filosófico. Ao que nos parece, até a administração da cidade é uma obra a ser desenvolvida pela Filosofia.

Portanto, a passagem de uma tradição mítica e palaciana para o regime da pólis exige dos cidadãos uma nova e inédita compreensão do fenômeno político, social, religioso etc. Essa compreensão  é retratada pela passagem do discurso mítico ao discurso do logos, tema que iremos discutir a seguir.

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