Introdução ao Pensamento de Heráclito e Parmênides - Pt 1
- agosto 25, 2017
- By Ivan Sousa
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Heráclito
Como já ressaltamos no post anterior (aqui) , o primeiro período do desenvolvimento do pensamento filosófico, o período pré-socrático, estende-se entre o século 6º a.C. e o século 5º a.C. Entre os primeiros pensadores, uma atenção especial cabe a Heráclito e a Parmênides.
A citação a seguir dá-nos mostras do inegável gênio atribuído a Heráclito, um pensador que se destacou entre os filósofos de seu tempo e, também, adquiriu a admiração de toda a história da Filosofia.
Só vejo o devir. Não vos deixais enganar! É a vossa vista curta e não a essência das coisas que se deve o facto de julgardes encontrar terra firme no mar do devir e da evanescência. Usais os nomes das coisas como se tivessem duração fixa; mas até o próprio rio, no qual entrais pela segunda vez, já não é o mesmo que era da primeira vez (HERÁCLITO apud NIETZSCHE, 1987, p. 40).
Segundo Burnet (2006, p. 159): "Heráclito desdenha não apenas a maioria dos homens, como também todos os que haviam investigado a natureza". Os fragmentos a seguir ajudam-nos a compreender como Heráclito sentia que os investigadores anteriores a ele teriam se afastado da verdade em vez de ter encontrado uma verdade que, para ele, parecia ser evidente.
(92) Por isso devemos seguir o comum, mas embora minha Palavra seja comum, muitos vivem como se tivessem uma sabedoria particular.
(93) Eles se afastam daquilo com que tem relação mais constante.
(95) Os acordados tem um único mundo comum, mas cada um dos adormecidos vira-se para um mundo próprio (HERÁCLITO apud BURNET, 2006, p. 156).
Vemos claramente como Heráclito pensava ter descoberto algo que, além de muito simples, estava bem diante dos olhos dos homens. Apesar de ser evidente, os homens voltavam-se para um mundo particular e, assim, distanciavam-se da realidade mais comum e mais evidente.
Essa característica que aponta uma verdade evidente e comum a todos os homens, mas de que, no entanto, os homens estão distantes, além de outros elementos dialéticos de seu pensamento renderam-lhe o título de pensador "obscuro". Em seu pensamento, a concepção dialética entre "perto" e "longe", entre "para cima" e "para baixo" e entre "bem" e "mal" fundamenta a sua teoria de que tudo está em constante transformação – "tudo flui (panta rei)" –, sendo o permanente fluir a única característica constante no universo.
Uma característica marcante dos primeiros filósofos é associar a arché (princípio do qual todas as coisas provêm) a um elemento natural. O fogo, em Heráclito, realiza completamente as funções dialéticas de seu pensamento. Ele entende o fogo não apenas como arché, mas como princípio objetivo, fundamento substancial e não temporal da realidade.
Os outros elementos naturais (água, terra e ar) são as formas passageiras e imediatas do fogo, que representa a essência permanente e, também, a base ontológica do fluir. No Fragmento 22, o pensador grego esclarece esse câmbio ontológico: "Todas as coisas se trocam por Fogo, e o Fogo por todas as coisas, como mercadorias por ouro e ouro por mercadorias" (HERÁCLITO apud BURNET, 2006, p. 152).
Trata-se de uma visão muito sofisticada de Heráclito de que a passagem do múltiplo ao uno é, na verdade, uma justiça suprema. Sua visão de harmonia entre os lados opostos é inovadora entre os filósofos da Jônia. Segundo Burnet (2006, p. 160), "Anaximandro tratara o conflito entre os contrários como uma 'injustiça'. O que o próprio Heráclito procurou mostrar foi inversamente, que essa era a justiça suprema". Portanto, o "tudo flui" expressa o movimento como parte essencial da realidade, graças à qual o princípio unitário é a natureza que se engendra e que se apaga em suas formas concretas (nada se cria e nada perece). Vista como justiça suprema, a tensão entre os opostos faz da visão de Heráclito sobre as coisas algo extremamente inovador no pensamento da Grécia Antiga. Mesmo o grande Homero é contestado por Heráclito na maneira que considera a luta constante entre os opostos. No Fragmento 43, Heráclito afirma:
Homero estava errado ao dizer: 'Quem dera a discórdia se extinguisse entre os deuses e os homens!' Não viu que suplicava pela destruição do Universo, pois, se sua prece fosse ouvida, todas as coisas pereceriam (HERÁCLITO apud BURNET, 2006, p. 154).
O fogo, além de representar o movimento dialético no qual tudo tem origem e destino final, passa a representar, de maneira fascinante, o processo pelo qual o movimento interno do universo deve acontecer. Com isso, Heráclito concebe, pela primeira vez na história da Filosofia, a ideia de um logos que tudo governa.
Sua concepção de logos é representada por uma harmonia de guerra e paz. Segundo Diógenes Laércio (apud BURNET, 2006, p. 162), Heráclito concebia a lei do logos de acordo com a sua concepção do fogo como princípio. O comentário de Diógenes é enriquecedor para esclarecermos esse ponto da doutrina do "filósofo obscuro".
O todo é finito e o mundo é uno. Provém do fogo e volta a ser consumido pelo fogo, alternadamente, por toda a eternidade, em determinados ciclos. Isso acontece de acordo com o destino. Entre os contrários, o que leva ao nascimento do mundo chama-se Guerra e Discórdia; e o que leva à conflagração final, Concórdia e Paz.
A visão do pensador será muito importante na construção da Filosofia de Platão, que, tentando resolver o problema insolúvel entre as concepções de Parmênides (que veremos no próximo post) e de Heráclito, fará, definitivamente, a cisão entre o mundo físico e o inteligível, fazendo nascer a metafísica como foco principal da discussão filosófica.




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