Leitura Digital 03 - Lógica e Dialética - Lógica Formal - Tema 1 - Artigo 2 - O PENSAR E O PENSAMENTO
- março 28, 2018
- By Ivan Sousa
- 0 Comments
TEMA I
ARTIGO 2
O PENSAR E O PENSAMENTO
O sujeito do pensar é
quem pensa, sujeito real, temporal. É a mente humana que realiza o ato de
pensar (pensar, medir, calcular). O ato de pensar é, como ato, sempre novo.
Assim penso no livro que está à minha frente e cada vez que procedo este
pensar, realizo um ato novo. Penso hoje no livro, penso amanhã também. O ato de
pensar é outro, mas o pensamento livro é o mesmo. Tal fato se dá, porque
o que conceituamos, nós extraímos, abstraímos das coisas.
Esse conceito
permanece virtualizado em nossa mente, pois o conceito de livro não é um livro,
objeto real, mas o que generalizamos do livro, um esquema abstrato. E
chamaremos de livro a todo o objeto que, em ato, isto é, como objeto, que
suceda aqui e agora, corresponda àquele livro ideal que virtualizamos. O conceito
permanece em minha mente como algo virtual, que ainda não é existencialmente em
ato.
O ser virtual (que os
filósofos costumam chamar de ser--empotência, ou seja, um ser que ainda
não é, mas que pode, tem o poder, potência, de vir a ser-em-ato)
não é ser no tempo nem no espaço, pois não ocupa um lugar nem muda com o tempo.
O livro, enquanto ato
(este livro, aquele livro), "ocupa um lugar no tempo e no espaço".
Por isso, ao pensarmos uma, duas, três vezes sobre o conceito livro, realizamos
três operações mentais de pensar, quer dizer, pensamos três vezes, mas o
conceito livro é sempre o mesmo em todas elas, porque o conceito o separamos
do tempo e do espaço, enquanto, ao pensar, somos tempo e espaço, e o
pensamento é algo que repetimos, porque não é tempo nem espaço.
Assim, quando pensamos
três vezes sobre o triângulo, realizamos o ato de pensar três vezes; no
entanto, não temos três triângulos, mas apenas um, porque o conceito de
triângulo é alguma coisa que separamos do tempo e do espaço, pois este que está
aqui pode ser maior ou menor em ato, apesar de, como conceito, não ter dimensão
nem seus ângulos graus determinados, a não ser a soma de dois ângulos retos, o
que é matematicamente necessário para a concepção de um triângulo.
Todos, no entanto,
sentimos isso quando dizemos: "eu tive o mesmo pensamento de você",
ou seja, quando um pensamento de outrem coincide com o nosso. Vemos, assim, que
sentimos a realidade de um dos pontos mais importantes da lógica, que é o da distinção
entre pensar e pensamento. O primeiro é objeto da Psicologia; e o segundo, da
Lógica.
A todo pensamento
corresponde um objeto ou situação objetiva, para o qual êle tende,
dirige-se, por isso se diz que o pensamento é intencional.
Intencional, por ter intenção (de intendere). Esta
expressão se deve à escolástica, mas atualmente voltou a ser usada no sentido
de aplicação do espírito a um objeto de conhecimento, o acto que tende para o objeto
e, também, como conteúdo, o próprio objeto, ao qual o espírito se aplica. Todo
pensamento é um aplicar-se a um objeto, é, portanto, intencional, pois todo
pensamento é pensamento de alguma coisa.
A lógica estuda os
pensamentos como pensamentos, e quando ela os esvazia dos seus conteúdos, e quando
os estuda como generalidades, e observa-os como formas, chama-se Lógica
formal.
A observação nos
mostra que toda e qualquer ciência tem a sua lógica. A lógica geral, formal,
procura sintetizá-las numa base universal, geral. Vamos a exemplos
esclarecedores. Se considerarmos o conceito Homem, verificaremos que, na
Antropologia, na Fisiologia, na Anatomia, êle tem um conteúdo, tem particularidades
diferentes de Homem, quando usado na Filosofia ou na Sociologia. Cada
ciência dá aos conceitos caracteres que lhe são peculiares. A lógica formal
estuda os pensamentos, conceitos, etc, como formas, (como
"formas", poderíamos dizer, isto é, esvaziadas de seus conteúdos) e
os estuda independentemente de suas peculiaridades. Por isso se chama Lógica
Formal.
É a Lógica a ciência
dos pensamentos, e a lógica formal, dos pensamentos como formas, quer
dizer, apenas como pensamentos, esvaziados de seu conteúdo fático.
Discutem, tanto os
lógicos como os filósofos, se a lógica é uma ciência teórica ou uma ciência
normativa ou apenas uma arte ou técnica. Naturalmente, não
vamos reproduzir aqui essas longas discussões, mas poderíamos dizer que todos
têm o seu fundo de razão, porque ela pode ser encarada, empregada e estudada
por qualquer um desses aspectos.
É uma ciência teórica,
quando especula sobre os elementos que formam o seu arcabouço; é normativa,
quando oferece regras pelas quais podemos aquilatar se um pensamento está
certo ou errado. Assim ela atende a todos esses aspectos, o que não impede que
os desejosos de se embrenhar apenas na lógica teórica o façam, enquanto outros
estudam apenas a sua aplicação normativa. O grande surto que toma atualmente a
logística, a lógica matemática, e as diversas formulações dialéticas, vem comprovar
as grandes possibilidades de torná-la eminentemente prática e útil, sem negar o
esforço daqueles que pretendem estudá-la apenas como ciência teórica.




0 comentários