Leitura Digital 03 - Lógica e Dialética - Lógica Formal - Tema 1 - Artigo 2 - O PENSAR E O PENSAMENTO


  
TEMA I

ARTIGO 2

O PENSAR E O PENSAMENTO

O sujeito do pensar é quem pensa, sujeito real, temporal. É a mente humana que realiza o ato de pensar (pensar, medir, calcular). O ato de pensar é, como ato, sempre novo. Assim penso no livro que está à minha frente e cada vez que procedo este pensar, realizo um ato novo. Penso hoje no livro, penso amanhã também. O ato de pensar é outro, mas o pensamento livro é o mesmo. Tal fato se dá, porque o que conceituamos, nós extraímos, abstraímos das coisas.
Esse conceito permanece virtualizado em nossa mente, pois o conceito de livro não é um livro, objeto real, mas o que generalizamos do livro, um esquema abstrato. E chamaremos de livro a todo o objeto que, em ato, isto é, como objeto, que suceda aqui e agora, corresponda àquele livro ideal que virtualizamos. O conceito permanece em minha mente como algo virtual, que ainda não é existencialmente em ato.
O ser virtual (que os filósofos costumam chamar de ser--empotência, ou seja, um ser que ainda não é, mas que pode, tem o poder, potência, de vir a ser-em-ato) não é ser no tempo nem no espaço, pois não ocupa um lugar nem muda com o tempo.
O livro, enquanto ato (este livro, aquele livro), "ocupa um lugar no tempo e no espaço". Por isso, ao pensarmos uma, duas, três vezes sobre o conceito livro, realizamos três operações mentais de pensar, quer dizer, pensamos três vezes, mas o conceito livro é sempre o mesmo em todas elas, porque o conceito o separamos do tempo e do espaço, enquanto, ao pensar, somos tempo e espaço, e o pensamento é algo que repetimos, porque não é tempo nem espaço.
Assim, quando pensamos três vezes sobre o triângulo, realizamos o ato de pensar três vezes; no entanto, não temos três triângulos, mas apenas um, porque o conceito de triângulo é alguma coisa que separamos do tempo e do espaço, pois este que está aqui pode ser maior ou menor em ato, apesar de, como conceito, não ter dimensão nem seus ângulos graus determinados, a não ser a soma de dois ângulos retos, o que é matematicamente necessário para a concepção de um triângulo.
Todos, no entanto, sentimos isso quando dizemos: "eu tive o mesmo pensamento de você", ou seja, quando um pensamento de outrem coincide com o nosso. Vemos, assim, que sentimos a realidade de um dos pontos mais importantes da lógica, que é o da distinção entre pensar e pensamento. O primeiro é objeto da Psicologia; e o segundo, da Lógica.

A todo pensamento corresponde um objeto ou situação objetiva, para o qual êle tende, dirige-se, por isso se diz que o pensamento é intencional.
Intencional, por ter intenção (de intendere). Esta expressão se deve à escolástica, mas atualmente voltou a ser usada no sentido de aplicação do espírito a um objeto de conhecimento, o acto que tende para o objeto e, também, como conteúdo, o próprio objeto, ao qual o espírito se aplica. Todo pensamento é um aplicar-se a um objeto, é, portanto, intencional, pois todo pensamento é pensamento de alguma coisa.
A lógica estuda os pensamentos como pensamentos, e quando ela os esvazia dos seus conteúdos, e quando os estuda como generalidades, e observa-os como formas, chama-se Lógica formal.
A observação nos mostra que toda e qualquer ciência tem a sua lógica. A lógica geral, formal, procura sintetizá-las numa base universal, geral. Vamos a exemplos esclarecedores. Se considerarmos o conceito Homem, verificaremos que, na Antropologia, na Fisiologia, na Anatomia, êle tem um conteúdo, tem particularidades diferentes de Homem, quando usado na Filosofia ou na Sociologia. Cada ciência dá aos conceitos caracteres que lhe são peculiares. A lógica formal estuda os pensamentos, conceitos, etc, como formas, (como "formas", poderíamos dizer, isto é, esvaziadas de seus conteúdos) e os estuda independentemente de suas peculiaridades. Por isso se chama Lógica Formal.
É a Lógica a ciência dos pensamentos, e a lógica formal, dos pensamentos como formas, quer dizer, apenas como pensamentos, esvaziados de seu conteúdo fático.
Discutem, tanto os lógicos como os filósofos, se a lógica é uma ciência teórica ou uma ciência normativa ou apenas uma arte ou técnica. Naturalmente, não vamos reproduzir aqui essas longas discussões, mas poderíamos dizer que todos têm o seu fundo de razão, porque ela pode ser encarada, empregada e estudada por qualquer um desses aspectos.
É uma ciência teórica, quando especula sobre os elementos que formam o seu arcabouço; é normativa, quando oferece regras pelas quais podemos aquilatar se um pensamento está certo ou errado. Assim ela atende a todos esses aspectos, o que não impede que os desejosos de se embrenhar apenas na lógica teórica o façam, enquanto outros estudam apenas a sua aplicação normativa. O grande surto que toma atualmente a logística, a lógica matemática, e as diversas formulações dialéticas, vem comprovar as grandes possibilidades de torná-la eminentemente prática e útil, sem negar o esforço daqueles que pretendem estudá-la apenas como ciência teórica.

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